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Ana Oliveira

26
Nov18

Fases de procurar casa para arrendar, em Lisboa.

1ª: “Tenho estes objectivos e não pretendo alterá-los. É isto ou nada.”

2ª: “Devia aumentar o valor máximo. Nem sei se depois não é negociável e fico com a renda que queria.”

3ª: “Isto de ver só no concelho de Lisboa é limitador. Vou ver no distrito todo que nunca se sabe, até pode ser a casa ideal e não ficar assim tão longe.”

4ª: “Mafra até é aceitável. Fazia-se. Dizem que é sossegado e tudo.”

5ª: “E Santarém? É a uma hora de comboio daqui. Às vezes, uma gaja até perde mais a ir dos Olivais à baixa.”

6ª: Voltar a procurar no concelho de Lisboa, mas aceitando a realidade de que só vou ter um saco-cama e um campingaz.

30
Dez15

Ó flor, anda cá ao patriarcado!

Em 2015, algo como a criminalização do piropo não devia ser necessário porque, simplesmente, já não devia existir esse tipo de desrespeito. Estamos tão avançados tecnologicamente mas as relações humanas continuam a ser chatas, a dar trabalho e é melhor deixar para depois.

As redes sociais acordaram com este tema. Infelizmente, acordaram numa máquina do tempo que as meteu de volta no século anterior, em que as mulheres não têm direitos, opiniões, sentimentos próprios e, realmente, que coisas é essa de mulheres que pensam por elas e que podem sair de casa sem estarem atreladas a homens? O sentimento do patriarcado, do homem ser o mais poderoso e, coitadinho, estar a ser privado do seu direito de se manifestar como homem sexual, saiu à rua, a bater no peito, qual homem das cavernas.

O homem que manda um piropo apenas está a tentar elogiar a mulher que passa. Ela, tão estonteante que é, merece que a rua toda oiça o homem, no seu exercício de completa liberdade de expressão, a objectificá-la sexualmente.
Mas não é isso que a mulher pode sentir, que está a ser tratada como um objecto sexual, como a fantasia daquele homem que, na verdade, só estava a tentar ser um cavalheiro, que achava que a pobre mulher nem se ia sentir bem com ela própria se ele não lhe tivesse gritado toda e qualquer nojeira.

Esta é a lógica: a mulher não se pode sentir constrangida, envergonhada, assediada, ameaçada verbal e fisicamente, porque não foi com essa intenção que o homem proferiu quaisquer palavras. E, devido a isso, a mulher só pode estar com a mania da perseguição, estar a ser parva, não saber o que estar a dizer, estar a inventar, ser tudo da cabeça dela.

Pior, só as mulheres que defendem esta posição masculina, que acham que é normal, que desculpabilizam a atitude dos homens, que dizem que as outras, que se queixam, têm é de saber ignorar. Como se fosse natural. O pior é que, na sociedade portuguesa, é. 
Está entranhado, desde os tempos do patriarcado, em que o homem pode fazer o que quiser e a mulher tem de se sujeitar. Porque o homem é o elemento mais forte, é a voz que conta.

Fingimos que resolvemos o problema, ao dizermos à mulher para ignorar ou responder da mesma forma. Não vemos que o problema é a atitude tomada, em primeiro lugar. É essa humilhação, esse rebaixar da mulher, para o homem sentir que voltou a ganhar, por uns segundos, o seu estatuto de macho. E isto não fica restrito a uma faixa etária. Vai passando, de avôs para filhos para netos, uma crença de que a mulher é um objecto, pode ser manuseada como convier melhor.

É triste que, em 2015, eu ainda tenha de pensar duas vezes em qualquer roupa que queira vestir, porque posso ou não ser assediada por ela. Seja por olhares, por comentários, por palavras, por gestos. Sentir-me mal pela minha própria genética. Sentir receio de sair à rua com um decote ou uns calções. Querer passear sozinha e acabar a ter de fugir de homens que não entendem um “não”, que insistem que me querem conhecer, mesmo quando eu peço, muito educadamente, que me deixem em paz, por medo de vir a sofrer algum abuso físico.

Ainda vivemos numa sociedade em que a mulher é violada e tem vergonha de contar a alguém e de passar por mentirosa. Que é assediada e não apresenta queixa, com medo de sofrer represálias. Onde temos “comediantes” que tentam aligeirar estes assuntos, torná-los numa anedota, numa coisa que não deve ser levada a sério, e que são aplaudidos.

Com a criminalização do piropo, estamos a dizer que não vamos mais virar a cara a este tipo de abusos. Mas há gente que ainda insiste em virar as costas.

24
Jul15

Pai meu que estás no céu.

Estou aqui, novamente. Às portas de uma depressão. Sempre que volto a entrar nesta espiral, a primeira coisa que vem à memória és tu. O início de tudo. A causa de cada trauma. Da infância até agora.

Se antes eu era cega por ti, agora vejo as coisas com mais clareza. Claro que serás sempre o meu pai e que o meu coração vai ficar, para sempre, destruído com a tua partida. Foste um pedaço que perdi e que tentei ter de volta durante bastante tempo. Procurei-te no amor e nos erros. Cometi os mesmos que ela, deixei-me cair em abusos, levar em cantigas e pensar que aquilo era amar, ser- se fiel a alguém. Procurei-te nos teus vícios, bons e maus, nas tuas fotografias, em objectos que ainda guardo. Procurei-te todos os dias na única música que ainda te lembro de ouvir. Procurei quem me protegesse e me ensinasse algo.

E encontrei-te.

Encontrei, tal como tu me fazias, alguém que me levou pela mão e mostrou-me o que o mundo tem de pior. Tal como tu, sentou-me na primeira fila para um espectáculo onde nem crianças nem mulheres deviam estar. Fui o teu jogo, a tua moeda de troca. E, ao mesmo tempo, o teu bem mais precioso, o teu prémio, a tua menina.

A minha primeira prisão foi amar-te cegamente, seguida de todas as outras em que te visitei.

Teres-me não foi o sinal de que estavas à procura para mudares de vida. Sempre achaste que podias ser duas pessoas, viver essas duas vidas. Pelo caminho, foste levando a minha. A minha infância pertenceu às vossas jogadas, à vossa doença, à vossa loucura. No teu caixão, foram dez anos de memórias boas, entre pai e filha, e ficaram as más, para levar ao psiquiatra, para pedir ajuda, socorro.

Não sei o que te fez mudar de ideias, tentares limpar-te, saíres de uma vida que sempre te teve agarrada pelos colarinhos, mas que nunca te mereceu.
Vieste tarde. Tentaste salvar-te e acabaste por me destruir contigo. Pegaste na minha saudade e fizeste dela só tua.

O teu funeral foi a primeira vez que tentei voltar para os teus braços. Todos os dias me custa. Nestes momentos em que a depressão que nunca tratei volta, mata-me. O meu corpo continua com os mesmos impulsos. E se saltasse para a frente do comboio? E se desse um passo para a frente destes carros? Mas não mereces. Com tudo o que deixaste que ela me fizesse. Com o teu egoísmo. Dói-me que tenhas desistido assim que isto começou. Que só tenhas decidido tentar nos últimos minutos do jogo. Apesar de tudo, o meu amor cá está, ao lado da minha mágoa. A achar que foste um bom homem e que não foi por mal. Que tinhas os teus problemas, que não sabias melhor, que estavas a fazer um esforço.

O meu medo é ser como tu. Ficar tão avariada que vá avariar um filho, envenenar uma relação. Andar a tentar corrigir até já ser hora de mandar tudo para o lixo e começar do zero. Mas prometo dar todo o carinho que me tentaste dar, na década que tivemos. Esta não é a primeira nem será a última carta que te escrevo. Mas é a primeira que consigo escrever sem lágrimas.

Pelo menos, exteriores.

Vou fumar um cigarro, com os teus trejeitos. Podes fazer-me companhia?