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Ana Oliveira

ano novo.

Dezembro 31, 2019

Esta fotografia é um retrato bonito do meu 2019. Não é tudo, mas é o que mais prezo. Pareço as velhotas do Facebook, mas acreditem que, depois de duas décadas de instabilidade, sabe bem ter uma família tão carinhosa como esta.

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fragilidade branca.

Dezembro 18, 2019

O mundo não é preto e branco. Ser racista não é só espancar pessoas negras. Ser machista não é só espancar mulheres. Ser homofóbico não é só espancar homossexuais.
Pessoas podem não estar num extremo e serem, na mesma, problemáticas e tóxicas.
Onde está espancar, podem colocar insultar, não querer atribuir direitos, várias coisas. Usei espancar porque alguém, uma vez, me disse que não era racista porque "racistas são aqueles que andam aí a bater nos pretos". Esses são os mais racistas, diria. Mas não os únicos.

circo turístico.

Dezembro 16, 2019

Óbidos é lindíssima, mas, ao mesmo tempo, parece um espectáculo que ali foi montado. Não moram lá pessoas, existem só os turistas e os funcionários. E, por mais que se visite por pura curiosidade, estamos todos a alimentar o circo.

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padrões.

Dezembro 14, 2019

Uma mulher dizer coisas criticáveis não vos iliba, automaticamente, de machismo. Existe esta noção de que temos sempre de agir nos conformes e o escrutínio em relação a nós é o triplo de qualquer homem. Exemplos actuais disto são a Joacine Katar Moreira e a Jameela Jamil. Basta uma palavra mal usada ou um acto desproporcional para toda a gente cair em cima quando muitos homens fazem pior e nem um centavo se dá ao assunto. Deviam pensar seriamente nos vossos double standards antes de criticarem uma mulher.

carristas.

Novembro 30, 2019

Vocês acham que bicicletas e trotinetes são um problema, mas e aquele senhor que estacionou no (pequeno) passeio da Morais Soares, à frente da barbearia onde entrou de seguida, e fez com que as pessoas tivessem de ir pela estrada?
E aquela senhora que, no Campo Grande, decidiu subir o passeio com o seu carro, para estacionar à entrada do metro?
E não podemos esquecer aquele condutor tão simpático do 735 que, num sinal vermelho, estava a mandar um ciclista ir para o meio do trânsito e a "fingir" que o ia atropelar.

sentir sentimentos.

Novembro 23, 2019

As pessoas - homens, principalmente -, têm de parar de ter vergonha de sentir. Se acontece uma coisa que nos faz sentir uma merda, vivam isso. Chorem, encham a cara de comida, ouçam música triste, vejam uma comédia romântica lamechas. Os vossos sentimentos são válidos.
Se não os viverem, nunca saberão lidar com eles. E todos sabemos como isso corre muito bem e não se transforma em toxicidade, passado uns anos.

fases de procurar casa para arrendar, em Lisboa.

Fevereiro 26, 2018

1ª: “Tenho estes objectivos e não pretendo alterá-los. É isto ou nada.”

2ª: “Devia aumentar o valor máximo. Nem sei se depois não é negociável e fico com a renda que queria.”

3ª: “Isto de ver só no concelho de Lisboa é limitador. Vou ver no distrito todo que nunca se sabe, até pode ser a casa ideal e não ficar assim tão longe.”

4ª: “Mafra até é aceitável. Fazia-se. Dizem que é sossegado e tudo.”

5ª: “E Santarém? É a uma hora de comboio daqui. Às vezes, uma gaja até perde mais a ir dos Olivais à baixa.”

6ª: Voltar a procurar no concelho de Lisboa, mas aceitando a realidade de que só vou ter um saco-cama e um campingaz.

ó flor, anda cá ao patriarcado!

Dezembro 30, 2015

Em 2015, algo como a criminalização do piropo não devia ser necessário porque, simplesmente, já não devia existir esse tipo de desrespeito. Estamos tão avançados tecnologicamente mas as relações humanas continuam a ser chatas, a dar trabalho e é melhor deixar para depois.

As redes sociais acordaram com este tema. Infelizmente, acordaram numa máquina do tempo que as meteu de volta no século anterior, em que as mulheres não têm direitos, opiniões, sentimentos próprios e, realmente, que coisas é essa de mulheres que pensam por elas e que podem sair de casa sem estarem atreladas a homens? O sentimento do patriarcado, do homem ser o mais poderoso e, coitadinho, estar a ser privado do seu direito de se manifestar como homem sexual, saiu à rua, a bater no peito, qual homem das cavernas.

O homem que manda um piropo apenas está a tentar elogiar a mulher que passa. Ela, tão estonteante que é, merece que a rua toda oiça o homem, no seu exercício de completa liberdade de expressão, a objectificá-la sexualmente.
Mas não é isso que a mulher pode sentir, que está a ser tratada como um objecto sexual, como a fantasia daquele homem que, na verdade, só estava a tentar ser um cavalheiro, que achava que a pobre mulher nem se ia sentir bem com ela própria se ele não lhe tivesse gritado toda e qualquer nojeira.

Esta é a lógica: a mulher não se pode sentir constrangida, envergonhada, assediada, ameaçada verbal e fisicamente, porque não foi com essa intenção que o homem proferiu quaisquer palavras. E, devido a isso, a mulher só pode estar com a mania da perseguição, estar a ser parva, não saber o que estar a dizer, estar a inventar, ser tudo da cabeça dela.

Pior, só as mulheres que defendem esta posição masculina, que acham que é normal, que desculpabilizam a atitude dos homens, que dizem que as outras, que se queixam, têm é de saber ignorar. Como se fosse natural. O pior é que, na sociedade portuguesa, é. 
Está entranhado, desde os tempos do patriarcado, em que o homem pode fazer o que quiser e a mulher tem de se sujeitar. Porque o homem é o elemento mais forte, é a voz que conta.

Fingimos que resolvemos o problema, ao dizermos à mulher para ignorar ou responder da mesma forma. Não vemos que o problema é a atitude tomada, em primeiro lugar. É essa humilhação, esse rebaixar da mulher, para o homem sentir que voltou a ganhar, por uns segundos, o seu estatuto de macho. E isto não fica restrito a uma faixa etária. Vai passando, de avôs para filhos para netos, uma crença de que a mulher é um objecto, pode ser manuseada como convier melhor.

É triste que, em 2015, eu ainda tenha de pensar duas vezes em qualquer roupa que queira vestir, porque posso ou não ser assediada por ela. Seja por olhares, por comentários, por palavras, por gestos. Sentir-me mal pela minha própria genética. Sentir receio de sair à rua com um decote ou uns calções. Querer passear sozinha e acabar a ter de fugir de homens que não entendem um “não”, que insistem que me querem conhecer, mesmo quando eu peço, muito educadamente, que me deixem em paz, por medo de vir a sofrer algum abuso físico.

Ainda vivemos numa sociedade em que a mulher é violada e tem vergonha de contar a alguém e de passar por mentirosa. Que é assediada e não apresenta queixa, com medo de sofrer represálias. Onde temos “comediantes” que tentam aligeirar estes assuntos, torná-los numa anedota, numa coisa que não deve ser levada a sério, e que são aplaudidos.

Com a criminalização do piropo, estamos a dizer que não vamos mais virar a cara a este tipo de abusos. Mas há gente que ainda insiste em virar as costas.